quarta-feira, 13 de novembro de 2013

GERÊS: Na terra dos cavalos selvagens

A serra de Soajo é um local de paisagens únicas. A natureza agreste moldou nas gentes um espírito comunitário único.
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Com o sol do fim de tarde já a esconder-se atrás das serranias, fazendo impressionantes jogos de luz entre as árvores, a beleza da paisagem torna-se ainda mais mágica.
Do alto do miradouro, veem-se, ao longe, no fundo do vale, as localidades de Soajo e Lindoso. E, mais além, a perder de vista no horizonte, os penedos das serras de Soajo, por onde, nos dias seguintes, nos iríamos aventurar.
A Porta do Mezio é o ponto de partida para os visitantes recém-chegados a esta região. Inaugurada este ano, esta nova infraestrutura é uma das entradas oficiais do Parque Nacional da Peneda Gerês, onde estão reunidos diversos equipamentos que ajudam a conhecer melhor este território, no qual homem e natureza se complementam como em poucos lugares no mundo.
O Centro Interpretativo, que alia uma vertente científica ao lazer, inclui um parque escultórico com as mais emblemáticas espécies animais da região, canteiros com flora do parque, um museu com o espólio das escavações do Núcleo Megalítico do Mezio (na zona existem várias mamoas, antas ou dólmenes) e uma aldeia tradicional em miniatura, com igreja, casas e espigueiros (para guardar as espigas de milho), onde nem faltam socalcos para cultivo, tanques de rega, moinhos e uma eira comunitária.
A tudo isto acrescenta-se uma zona de lazer com piscina, circuito de manutenção e ginásio ao ar livre.
Manhã bem cedo, seguimos para uma caminhada pela montanha. Juntamo-nos, para isso, a um pequeno grupo, liderado pelo enérgico Luís, professor de informática na Universidade do Minho, conhecedor como poucos da região, que parte da vizinha Branda de Gorbelas em direção ao interior da serra. As "brandas" e as "inverneiras" são um dos grandes exemplos da singular relação entre homem e natureza, nesta região.
As primeiras são um espaço sazonal, usado como zona de pastoreio durante o tempo mais quente e situam-se no alto da montanha, enquanto as segundas, de cariz mais permanente, ficam a quotas mais baixas e servem também para cultivo. Uma das mais emblemáticas é a branda do Poulo da Seida, uma zona de prado, no topo da montanha, onde somos surpreendidos por uma autêntica aldeia de "cortelhos", como são chamados os rudes abrigos dos pastores, de pedra sobreposta.
O sol já vai alto quando atingimos a nascente do rio Ramiscal, situada num lindíssimo planalto de urze e carqueja. Um pouco mais à frente, no final de um profundo vale, fica o Fojo do Lobo, onde dois enormes muros de pedra, que se estende ao longo de quilómetros pela encosta, afunilando-se numa pequena cerca para aprisionar lobos. É junto do Fojo que retemperamos as forças, com uma fatia de broa de mel, café acabado de fazer e uma milagrosa aguardente de pera e pêssego, trazida por David, um filho da terra regressado às origens, que hoje explora um restaurante em Soajo.
A caminhada continuou até ao alto da Pedrada, o ponto mais elevado da serra de Soajo, com 1 416 metros de altitude, tendo apenas como companhia algumas vacas cachenas (uma raça autóctone da região) e bandos de cavalos selvagens. Lobos, nem vê-los, mas eles ainda andam por lá, como avisou Luís, apontando para as ossadas de um animal, com certeza devorado pelo predador rei destas paragens.
O cansaço já começava a dar sinais quando, finalmente, chegámos à Cova, como é conhecida a Branda de Soajo, onde nos esperava o senhor António, pai de David, com uma enorme panela de ferro ao lume, na qual fervia uma massada de carne cachena.
O passeio continuou tarde fora e já era quase noite quando finalmente regressámos, a tempo de aceitar o convite de David para jantar no seu restaurante, o Espigueiro de Soajo, onde provámos os nacos de vitela barrosã, uma das especialidades da casa.
O dia seguinte estava reservado para a histórica vila do Soajo, famosa pelo vasto conjunto de espigueiros (o mais antigo é de 1782), situados sobre uma enorme laje de granito, também usada como eira comunitária.
Desde muito cedo que os habitantes da vila se destacaram pela sua atividade como caçadores, o que levou, ainda na Idade Média, a que a serra de Soajo fosse transformada em Coutada Real para os nobres caçarem ursos, javalis, cabras-bravas, lobos e raposas. No Soajo, vale a pena visitar o pelourinho, no largo principal, e seguir depois para o Poço Negro, uma das muitas cascatas que circundam a vila. Mas pode também o visitante deixar-se perder nas ruas de granito, sulcadas pelos trilhos dos carros de bois e, depois, seguir até ao restaurante Videira, um dos templos gastronómicos desta região, onde a D. Maria Amélia recupera, com saber e muito amor, os ancestrais sabores serranos.
Assim o fizemos e o que esperávamos ser um almoço rápido transformou-se num pantagruélico banquete. Só as entradas (pataniscas, chouriço de mel grelhado, presunto caseiro) eram uma refeição, mas o melhor ainda estava para vir. Iguarias como vitela da cachena grelhada, acompanhada com o tradicional arroz de "feijão tarrestre", galo capão no forno ou cabrito no forno com afogado um prato confecionado com pão, miudezas de cabrito, batata e massa, que, como explica a sempre sorridente D. Maria Amélia, "era antigamente servido nos casamentos, para encher os convidados".
E cheios também nós ficámos, não só de comida, mas de vontade de voltar.
GUIA DO VIAJANTE
DORMIR
Casa do Videira e Casa de Pereiró
Bairros, Soajo, Arcos de valdevez
T. 258 576 205/93 333 7076
www.casadovideira.com/pt
Quarto duplo: €50
Lima Escape Camping e Glamping
Parque de Campismo de Entre Ambos-os-Rios, Lugar de Igreja, Entre Ambos-os-Rios, Ponte da Barca
T. 258 588 361/96 496 9309/ 92 650 3332
lima-escape.pt
Glamping: €50 e €60
COMER
Restaurante Videira
Eiró, Soajo, Arcos de valdevez
T. 258 576 205/93 333 7076
www.casadovideira.com/pt
Aberto de sexta a domingo especialidades: posta de cachena com arroz de feijão, cozido à soajeira, cabrito no forno com afogado, bacalhau à videira
Preço médio: €15
Restaurante Espigueiro do Soajo
Avenida 25 de Abril, 1425, Soajo, Arcos de valdevez
T. 258 576 136
Aberto de terça a domingo
Especialidades: cabrito no forno; nacos de carne barrosã grelhados, bacalhau à espigueiro.
Preço médio: €15
VER
Centro Interpretativo e Área de Lazer da Porta do Mezio
Mata do Mezio, Arcos de valdevez
t. 258 522 157/258 510 100
www.portadomezio.pt/mezio
Entrada: €3
Fonte: Visão, em 13-11-2013

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